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A vaidade do escritor

 

Por Ana Paula Prange

Quem escreve geralmente é vaidoso(a). Isso é um fato. Uma certa dose de pretensão é inevitável (e até necessária) para alguém que deseja, através, da escrita, tocar o coração ou a mente de outros mortais comuns desconhecidos que muitas vezes têm como única afinidade o fato de pertencerem à raça humana. A vaidade do escritor quando fica teimosa, no entanto, pode virar um sério problema. Afinal, desperdiçar aquela frase ou expressão tão bonita, tão bem feita, mas que não cabe no texto final requer uma enorme dose de desprendimento. Isso é outro fato.

 

Escrever para o teatro requer doses ainda maiores, tanto de vaidade como de desprendimento. Ver suas palavras ecoando em bocas alheias é o tipo de fantasia que quando realizada torna-se ainda mais saborosa. A vaidade não é, entretanto, o único elemento necessário. Como me disse certa vez Eduardo Tornaghi, a atividade no teatro requer vaidade e generosidade. Eis o desprendimento do qual falo. Insistir numa piada ou frase que ficou bacana, mas que no decorrer do processo – de escrita ou montagem – perde o sentido é colocar em risco não só a coerência do texto, mas muitas vezes a identidade dos personagens e até mesmo a empatia por parte do público.

 

Por conta disso o ‘perco o amigo, mas não a piada’ merece um tamanho cuidado no teatro, sobretudo no teatro focado em temas específicos – que geralmente apresentamos em empresas ou escolas. Desapegar-se da piada depreciativa, da frase genial que está sem local para ser encaixada, ou da grande sacada que virou um saco sem fundo é – muitas vezes – a melhor saída. Isso vale para o teatro. E acredito que para a vida também. O difícil é largar a tal da vaidade …

 

 

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