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Entre o prescrito e o real

Por Ana Paula Prange

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Por quê é tão difícil fazer o que é certo, seguro ou saudável? Diz o ditado popular que tudo o que é bom ou engorda, ou faz mal ou é imoral. Há uma dificuldade reconhecidamente assumida por boa parte dos mortais comuns em realizar o que é prescrito, considerado certo, ou recomendado como mais seguro.

Desde que o Dr. Sigmund Freud “descobriu” o Inconsciente, na passagem do século XIX para o século XX, a humanidade vem tendo que reconhecer um fato: não somos guiados unicamente pela razão. A racionalidade está longe de ser a única força que governa as ações humanas.

Entre o que se prescreve – e o que se realiza de fato -, um universo subjetivo existe. Ele contém desejos ocultos, resistências, traumas do passado, hábitos arraigados, preconceitos, ilusões, vícios, medos, ideologias – defensivas ou não, e uma infinidade de elementos psíquicos.

C. Dejours, psicanalista e psicólogo do trabalho, é um dos pesquisadores desse universo subjetivo – que atua entre o prescrito e o real. Ele é uma das referências teóricas que mais inspira os projetos do Grupo Na Lata, na medida em que busca indicar em seus livros e artigos, com certa freqüência, alguns dos possíveis elementos desse universo subjetivo atuante na realidade.

Reflexão aplicada à prática: o caso dos EPIs

O uso do EPI (equipamento de proteção individual) é um exemplo. Em ambientes de risco os trabalhadores escutam que devem usar os EPIs. Em muitos casos assistimos, porém, uma resistência dos mesmos em utilizá-los, comportamento que alguns empregadores julgam apressadamente como “displicente”.

Olhando mais de perto, com a lupa dejouriana, vamos encontrar alguns motivos pelos quais os trabalhadores não utilizam seus EPIs. Um desses motivos pode ser a sensação de insegurança e medo vivenciada em seu ambiente de trabalho. Parece um contra-senso, mas justamente pela falta de outros equipamentos de segurança, coletivos por exemplo, o sentimento de desamparo é negado – ou recalcado, como diriam os psicanalistas. Assim, o não uso dos EPIs pode ser a forma encontrada de não entrar em contato com a insegurança gerada por outras condições de trabalho que não dependem só deles. Aquilo que não é dito, entretanto, atua de alguma forma. O não uso dos EPIs pode ser uma delas.

Um outro motivo pelos quais os empregados não usam os EPIs, que foi por nossa equipe detectado em um debate pós-apresentação, era a total inadequação dos equipamentos, descritos como desconfortáveis e “dispersantes”. Protegiam por um lado, incomodando por outro. Após diálogos travados com os funcionários dessa organização tivemos a oportunidade de acompanhar a compra de novos EPIs por parte da empresa, mais adequados, modernos e confortáveis.

No mesmo debate um relato emocionado de um funcionário pode demonstrar a eficácia do uso dos EPIs. Entendemos que a sensibilização provocada pelo esquete, incluindo aí a música e outros elementos, contribuiu para a maior “abertura” dos colaboradores em relação a experiência do Sr. J. Este contou então que 15 anos antes havia sofrido um acidente em área confinada, tendo conseguido sair ileso justamente por conta do uso do equipamento de proteção individual.
Esses exemplos simples mostram que a sensibilização, a compreensão e o diálogo podem propiciar transformações muito mais eficazes do que a mera imposição das tarefas e ações por parte de gerentes, empregadores e direções. Compreender o que atua entre o prescrito e o real é fundamental para o diálogo.
Assim, consideramos a Psicodinâmica do Trabalho, bem como a Ergonomia da Atividade, desenvolvidas por autores como C. Dejours, Y. Clot e outros, as teorias que melhor propiciam uma compreensão das questões que impedem, muitas vezes, o prescrito de se tornar real, seja em uma empresa, organização, ou até mesmo em um único organismo humano.

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